Hoje é terça-feira de carnaval. Enquanto escrevo estas linhas, o som das últimas marchinhas ainda ecoa pelas ruas do nosso Centro Histórico, marcando o encerramento de mais um Carnaval em Nazaré Paulista. Ainda não temos o balanço oficial de quantas mil pessoas passaram por aqui nestes cinco dias, mas basta caminhar pela praça, conversar com as pessoas e sentir a energia na cidade: Nazaré está viva, cheia e vibrante.
No entanto, nos últimos dias, enquanto publicávamos a programação oficial no Portal Conecta Nazaré, um movimento previsível aconteceu nos comentários das nossas redes sociais. De um lado, a alegria dos foliões; do outro, críticas pesadas que me fizeram refletir. Li comentários do tipo:
"O hospital está cheio de goteira e a prefeitura fazendo festa" ou "Não tem dinheiro para asfaltar o acesso aos bairros rurais, mas para Carnaval e Rodeio sempre tem".
Como alguém que vive Nazaré há 13 anos e analisa o mercado com o olhar de quem veio da capital, eu entendo a frustração de quem vê um problema básico sem solução. Mas precisamos fazer a tradução correta dessa situação.
A Falsa Dicotomia
Essa ideia de que ou se investe em saúde ou se investe em cultura é uma armadilha. Lembro-me bem de uma fala do ex-prefeito Murilo Pinheiro, durante a eleição do COMTUR (Conselho Municipal de Turismo) em janeiro desse ano. Ele foi certeiro ao dizer que sempre enfrentou esse questionamento.
O ponto dele, e o meu também, é que uma gestão pública eficiente precisa, sim, arrumar a goteira do hospital, mas também precisa garantir o Carnaval. Uma coisa não anula a outra. Cidades que cancelam suas festas alegando "priorizar a saúde" muitas vezes acabam sem a festa e, meses depois, continuam com os mesmos problemas na saúde. Isso acontece porque o Carnaval não é um "gasto vazio", mas um dos maiores motores econômicos do estado.
A Matemática do ROI (Retorno sobre Investimento)
Para 2026, as projeções são claras: o Carnaval em São Paulo deve movimentar cerca de R$ 7,3 bilhões. E o dado mais importante para nós: 70% dos paulistas planejam viajar dentro do próprio estado. Nazaré Paulista, com suas marchinhas 100% autorais e ambiente familiar, é o destino perfeito para captar esse "turismo de proximidade".
Quando a prefeitura investe na estrutura de eventos, ela não está "dando dinheiro para banda". Ela está ativando um multiplicador econômico. Cidades como São Luiz do Paraitinga já entenderam isso: transformam a tradição em um ativo financeiro robusto. Em Nazaré, vejo o mesmo potencial com o nosso selo "Feitos em Nazaré", onde o produtor de mel, a produtora de doces e a artesã encontram no turista o seu melhor cliente.
Ouro no Interior e Família na Praça
Enquanto muitos focam apenas no custo do palco ou da banda, eu olho para o que está acontecendo em nossa zona rural e nossos morros. Nazaré Paulista está com sítios, chácaras e Airbnbs lotados. São centenas de famílias que saíram da capital e de cidades vizinhas para buscar refúgio aqui.
Durante o dia, esse turista consome os nossos produtos e frequenta nossos restaurantes. À noite, eles sobem para o centro em busca de uma opção divertida e segura. O nosso Carnaval de marchinhas é, por essência, um evento familiar. Quando o turista aluga uma chácara no Bairro do Cuiabá ou no Quatro Cantos, ele está pagando o caseiro, comprando no mercado do bairro e abastecendo no posto local.
O Legado Além da Folia
A pergunta que fica é: de onde virá o recurso para obras se matarmos a nossa "galinha dos ovos de ouro"? O turismo é a nossa indústria limpa. É o que dá visibilidade para que Nazaré conquiste recursos estaduais e atraia novos investimentos para se tornar uma estância turística.
Arrumar a goteira do hospital é obrigação básica de gestão e deve ser cobrada com rigor. Mas usar isso como argumento para extinguir a cultura é um erro estratégico.
Conclusão
Neste último dia de folia, o meu desejo é que possamos evoluir o debate. Que a cobrança por serviços públicos de qualidade continue forte, mas que saibamos reconhecer que a nossa tradição também é um ativo valioso. O Carnaval de Nazaré Paulista não tira dinheiro da saúde; ele coloca Nazaré no mapa.
E você, o que achou do Carnaval de Nazaré Paulista esse ano?
Portal Conecta Nazaré